terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Ilíada VI: Glauco, Diomedes e a lei da hospitalidade


                                Diomedes troca armas com Glauco


"Por essa antiga amizade, és meu hóspede em Argos, ao passo
 que me farás grato hospício se um dia eu chegar até a Lícia.
 Cumpre, portanto, que, em meio da pugna, um ao outro poupemos."

HOMERO, Ílíada, VI (tradução de Carlos Alberto Nunes)

"Finalmente, a relação não era simplesmente entre dois indivíduos, mas entre duas famílias, dado que era hereditária - mesmo se a existência de uma xenia não fosse necessariamente conhecida por um ou por ambos os parceiros. Esse era o ponto da famosa história na Ilíada do encontro entre o grego Diomedes (de Tiryns, no Peloponeso) e Glauco, o lício (Lícia localizava-se na região costeira sul da Ásia Menor ocidental). Diomedes teve de lembrar, ou, antes, contar a Glauco que eles eram xenoi hereditários."

PAUL CARTLEDGE, The Spartans, p. 147(itálicos no original)

No livro VI da Ilíada de Homero, Glauco, guerreiro lício aliado dos troianos e herói descendente de Belerofonte (que matou a Quimera e foi dono de Pegasus), encontra, no calor do campo de batalha, o grande Diomedes, herói aqueu. Antes que o combate inicie-se, eles travam um diálogo no qual ambos anunciam suas honrosas ascendências. 

É Diomedes que, vendo Glauco aproximar-se, pergunta-lhe quem ele é, pois não o havia ainda visto no meio das batalhas. O motivo da pergunta era o temor de Diomedes de atacar novamente um imortal envolvido na guerra como antes fizera com Afrodite e com Ares. Como Glauco apresentava grande coragem em vir enfrentá-lo, Diomedes acha por bem averiguar se o oponente não é, na verdade, um deus em forma mortal.

A coragem de Glauco o distingue a ponto de Diomedes tomá-lo por um deus. Eis um elemento de honra e de grandeza da ética guerreira: Glauco não é um soldado qualquer. Sua disposição para um combate singular com Diomedes já demonstra seu valor. O relato de sua ascendência heróica só confirmará essa impressão inicial.

Glauco inicia questionando a necessidade da pergunta, pois:

"As gerações dos mortais assemelham-se  às folhas das árvores,
 que, umas, os ventos atiram no solo, sem vida; outras, brotam
 na primavera, de novo, por toda a floresta viçosa.
 Desaparecem ou nascem os homens da mesma maneira"

A importância da pergunta far-se-á evidente somente ao final do relato, quando a obrigação de hospitalidade mostrar-se clara. A reflexão de Glauco sobre a impermanência e desimportância das gerações humanas serve para ressaltar a revelação que virá a seguir e colocá-la dentro de um quadro mais abrangente de verdades sobre a existência.

O herói lídio, então, inicia seu relato e, nele, afirma ser descendente do grande herói Belerofonte, o matador do monstro conhecido como Quimera. Diomedes, então, declara que Glauco é seu hóspede desde os seus avós, pois seus ancestrais estavam ligados por deveres de hospitalidade. A Belerofonte fora dado abrigo por Eneu de Argos, de quem Diomedes descende.

Glauco e Diomedes imediatamente reconhecem aquela ligação sagrada e abstém-se de qualquer ato belicoso e trocam presentes. Entre apertos de mão, Diomedes dá a Glauco suas armas e este dá as suas a Diomedes. E despedem-se amigavelmente.

Note-se que Homero afirma que Zeus conturba o juízo de Glauco, pois este não se importa de trocar suas valiosas armas de ouro pelas armas de bronze de Diomedes. O deus intervém para que o juízo meramente humano de valor material não se sobreponha ao valor imaterial da hospitalidade. 

Essa relação de hospitalidade apresentada por Homero na Ilíada permanece na Grécia clássica na instituição do xenos. Segundo Paul Cartledge, essa era um instituição antiga e aristocrática cujo significado vai além do simples "estrangeiro" (tradução de xenos) e que pode melhor ser compreendido como "convidado-amigo ritualizado".

Isso porque a ligação criada entre os membros dessa aliança era afirmada e mantida por observações rituais poderosas. Ainda segundo Cartledge, o xenos não era uma simples relação de amizade e podia ser firmada mesmo com parceiros não-gregos, como o espartano Antalcidas era xenos do grande rei da Pérsia Artaxerxes II.

O historiador da antiguidade grega Moses Finley, em seu clássico The World of Odysseus, afirma que a própria ambivalência do termo xenos, a um tempo significando estrangeiro e hóspede, demonstra a tensa ambiguidade da condição do estrangeiro, uma ameaça constante a quem, no entanto, era necessário dar abrigo e proteção. No entanto, o indivíduo que tinha um xenos em uma terra estrangeira, possuía um substituto efetivo de seus próprios pais, um protetor, um representante e um aliado. 

E acrescenta: "Hóspedes e liames de hospitalidade eram bem mais que a expressão sentimental de uma afeição humana. No mundo de Odisseus, esses são termos técnicos que servem para designar formas muito concretas de ligação, implicando direitos e deveres tão formais quanto aqueles do matrimônio." 

Paul Cartledge sublinha que o xenos podia ser mais fiel a seu hospedeiro do que a seus compatriotas. Glauco e Diomedes deixam de cumprir seu dever guerreiro de matar os inimigos de seus respectivos reis e cidades, quaisquer que eles sejam (como ambos comprometeram-se quando de seu engajamento na guerra), para obedecer os laços pessoais da hospitalidade. Eles, conscientemente, escolhem cumprir uma lei que se lhes parece superior às leis da comunidade.

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